domingo, 5 de julho de 2026

Entrevista com Marc du Pontavice (La Lettre/CNC, junho de 2009)

Uma interessante entrevista com o Marc du Pontavice, dono da Xilam ao La Lettre da CNC (Centro Nacional do Cinema) na edição N⁰ 65 em junho de 2009. O que ele falou sobre a situação econômica na animação na TV acabou envelhecendo bem, já que as coisas pioraram com o streaming fazendo a mesma coisa nesta década, mas por sorte, a animação francesa no cinema melhorou...


Marc du Pontavice, Presidente do Conselho de Administração da Xilam, uma produtora especializada em filmes de animação, foi eleito em abril passado como Presidente da SPFA, o sindicato francês dos produtores de animação. No Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, ele compartilhou suas reflexões sobre o estado atual da indústria.

Quais são os principais assuntos que preocupam a SPFA atualmente?

Nossa principal preocupação está relacionada às transformações que afetam a televisão francesa. Estamos vivenciando uma crise de monetização de nossos programas. Vários fatores estão em jogo: a fragmentação da audiência e o rápido desenvolvimento da programação online, seja legal ou ilegal. Isso está levando a uma ruptura na estrutura tradicional de receita, já que as novas emissoras oferecem um retorno muito marginal sobre a participação de audiência que conquistam. O mito da programação gratuita é particularmente prevalente na programação infantil. De fato, em uma indústria altamente dependente do mercado internacional (quase 40% do seu financiamento) e com ciclos de produção muito longos (de três a cinco anos), as necessidades de fluxo de caixa são vitais, e a crise atual está afetando todas as capacidades de investimento.

O segundo problema, mais cíclico, está ligado à crise econômica na receita publicitária, que está impactando profundamente o mercado. Felizmente, na França, temos um sistema regulatório que nos protege até certo ponto. No entanto, internacionalmente, no último ano, fomos duramente atingidos por essa crise, que está levando a uma contração no poder de compra dos canais de televisão nos mercados internacionais. Há um risco real de ruptura para o mercado francês. Embora a animação francesa tenha conseguido conquistar os mercados internacionais, agora está exposta a um recuo para o mercado francês, com uma diminuição nos custos de produção. No entanto, quando esses custos são altos, isso facilita obras de maior qualidade e, portanto, melhores exportações. O ciclo vicioso não está longe.

Qual é o estado do cinema de animação francês?

O boom que vimos na década de 1990 para a animação televisiva não foi o mesmo para os filmes de animação. No entanto, os filmes de animação de autor se desenvolveram notavelmente bem na França nos últimos 10 anos. O exemplo de um filme como Kiriku, de Michel Ocelot, com seus números expressivos de bilheteria, gerou um modelo econômico interessante que impulsionou a indústria. Alguns filmes, como As Bicicletas de Belleville, de Sylvain Chomet, ou, mais recentemente, Persepolis, de Marjane Satrapi, também são grandes sucessos de bilheteria, tendo sido exportados para diversos territórios. Esses sucessos, que dizem respeito a filmes de autor, não são, contudo, suficientes para fomentar o desenvolvimento de um mercado sustentável que possa levar a uma economia confiável e duradoura. Na minha opinião, a indústria de filmes de animação deveria ser impulsionada tanto por filmes de autor quanto por filmes mais comerciais, ou pelo menos de grande público.

Há também a questão da distribuição?

A animação não conhece fronteiras nem barreiras culturais, o que oferece um enorme potencial de exportação. Na França, com exceção de Arthur e os Minimoys, de Luc Besson, há uma carência de distribuição internacional com capacidade de investimento significativa. Para piorar a situação, é difícil para a animação encontrar recursos televisivos equivalentes aos disponíveis para longas-metragens. Os canais públicos continuam a investir, a um ritmo de três filmes por ano. Os canais privados, por outro lado, investem pouco ou nada. Ainda não vemos animação no horário nobre.

Que lugar terá a juventude na televisão do futuro?

O mercado francês encontrou até agora um equilíbrio notável entre a transmissão terrestre, a cabo e via satélite. Com o desenvolvimento da televisão digital terrestre (TDT), esse modelo foi drasticamente alterado. Um canal de TDT como o Gulli desfruta de um sucesso de audiência espetacular, mas seu nível de receita atualmente não permite que ele reembolse a indústria pelos ganhos de audiência. O nível de investimento permanece muito baixo. A rede digital em desenvolvimento não proporciona, por enquanto, nenhum retorno correspondente. Mas esta é uma fase de transição.

A evolução dos formatos é uma vantagem?

É o lado positivo da fragmentação da audiência. O contexto atual levou as emissoras a experimentarem novidades, principalmente novos formatos e novos públicos-alvo. Além do formato tradicional de 26x26 minutos, encontramos agora diversos formatos curtos e ultracurtos. Isso leva à renovação e à busca por novos métodos de narrativa, novos designs e novas tecnologias. Esse foco na diversificação da oferta também fomenta o interesse de públicos novos, mais velhos e até mesmo adultos. A animação nunca foi tão variada quanto hoje; essa é uma vantagem extraordinária para a França. Sem mencionar a rede de escolas e estúdios de alta qualidade, que permite uma renovação constante da produção criativa.

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